Medicina do trabalho e seus números

No Brasil, anualmente, ocorrem por volta de 700.000 acidentes do trabalho, além dos milhares que não são registrados. Os custos desses acidentes são arcados pelo estado, trabalhadores, empresas e sociedade.
Pelo estado, por meio de benefícios previdenciários, como auxílio-doença, auxílio-acidente, aposentadoria por invalidez, pensão por morte e atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS); pelos trabalhadores, que sofrem com os pagamentos de medicamentos, perda de trabalho e discriminação no mercado de trabalho após um acidente do trabalho ou doença ocupacional; as empresas passam pelo absenteísmo, pelo aumento dos custos com Fator Acidentário de Prevenção (FAP), pelo pagamento de indenizações por danos físicos, morais e pensionamento em processos; e pela sociedade, em que os contribuintes vêem seus tributos sendo destinados para reação e não pra prevenção de acidentes do trabalho.

Conforme dados oficiais, os acidentes de trabalho custaram mais de R$ 26,2 bilhões à Previdência Social entre 2012 e 2017.

Já as perdas no Produto Interno Bruto (PIB) chegaram a R$ 264 bilhões. Além disso, são milhares de trabalhadores mortos e incapacitados permanentemente todos os anos no trabalho. Afirmou o procurador-geral do Trabalho, Ronaldo Fleury (2018) que “Nós temos uma cultura no Brasil de que o trabalhador acidentado não é problema da empresa, é problema da Previdência. Não é justo que toda a sociedade arque com essa despesa com base em descumprimento, por parte das empresas, de regras mínimas de saúde e segurança do trabalho”.

Para o professor José Pastore (2012): “O custo dos acidentes e doenças do trabalho para o Brasil chega a R$ 71 bilhões por ano, o equivalente a quase 9% da folha salarial do País, da ordem de R$ 800 bilhões”. Esse custo ainda é subestimado, porque não inclui a enorme massa de força de trabalho informal, que nem mesmo possui acesso aos benefícios da Previdência Social, mas se trata no SUS. Contudo, mesmo com todos esses números alarmantes, parcela dos gestores e empregadores têm a visão míope que Medicina do Trabalho é um custo.
É esse tipo de pensamento que faz o Brasil ser um dos primeiros no ranking mundial de acidentes do trabalho. Parcela dos gestores e empregadores não tem conhecimentos básicos da importância da saúde, higiene e segurança do trabalho e relegam essa área a um local desprestigiado dentro das empresas.

Investir em prevenção de acidentes do trabalho e doenças ocupacionais tem muito mais efetividade do que instrumentalizar a área jurídica da empresa em defesa de processos trabalhistas, quando o dano já foi provocado.
Indenizações trabalhistas poderiam ser poupadas se os investimentos em Medicina do Trabalho fossem realizados. É preciso abolir o pensamento errôneo de gestores e empregadores que a função de um médico do trabalho é somente realizar os exames ocupacionais, como o periódico, pois essa é somente uma das suas atribuições.
Dados públicos de estudos nos EUA, já evidenciaram que a cada US$ 1 dólar aplicado em prevenção de acidentes do trabalho e doenças ocupacionais pode trazer US$ 4 dólares de retorno para a empresa. Já a Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho (EU-OSHA) determina que para cada euro investido em SST, existe um retorno de 2,2 euros.

Investir em Medicina do Trabalho promove a redução dos acidentes do trabalho e doenças ocupacionais; melhoria do clima organizacional; aumento da produtividade; redução do absenteísmo e presenteísmo; retorno à imagem corporativa de mercado aos consumidores; proteção legal; redução do passivo trabalhista; preservação de vidas; redução de custos do Estado.

Assim sendo, o ideal seria a vinculação do SESMT a quem tenha poderes efetivos de gestão no empreendimento, porque a subordinação aos setores de menor hierarquia acaba por diminuir a importância das suas atividades. Pode-se reconhecer o grau de importância que o empregador atribui ao tema da segurança e saúde do trabalhador de acordo com a vinculação desse setor no organograma da empresa.

Não é cabível que no organograma de uma empresa o setor de saúde no trabalho esteja em posição rebaixada, sem a possibilidade fática de decisão real.
O médico do trabalho deve não somente ser o chefe dos serviços de saúde, mas também integrar a alta direção da empresa, devendo ser consultado nas decisões estratégicas. A contratação de profissionais da área de saúde, higiene e segurança do trabalho é um dos melhores e mais rentáveis investimentos que qualquer organização pode realizar.
Para tanto, é preciso educar e conscientizar gestores e empregadores, para permitirem o exercício ético da Medicina do Trabalho.

Fonte: Saúde Ocupacional

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